A humanidade tem que enfrentar uma “epidemia” global de obesidade. As causas desta epidemia são multifatoriais e particularmente complexas de definir. Combater a obesidade requer levar em consideração biologia, fisiologia, ecologia e ambiente social. A humanidade é confrontada com uma telescópica particularmente nociva entre a nossa herança genética e a recente irrupção de um ambiente pós-industrial particularmente agressivo. Uma coisa é certa, o aumento da prevalência da obesidade contribui muito diretamente para o aparecimento de doenças crónicas, incluindo diabetes tipo 2 e diversas doenças cardiovasculares.

Uma pessoa obesa é caracterizada por um excesso de tecido adiposo (TA) e a obesidade é um distúrbio do “órgão de gordura” afetando várias funções.

Pelo expert: Professor Max Lafontan

A célula adipócita é uma peça importante do nosso TA. Assim, temos desde 40 a mais de 100 milhões delas dependendo do nível de expansão do TA. Dados recentes chamaram a atenção para a precocidade de anormalidades no desenvolvimento dos adipócitos na infância e adolescência.

Outro ponto importante a ser observado são as significativas disparidades sexuais na distribuição da massa gorda, bem como a heterogeneidade funcional dos adipócitos de acordo com sua localização anatómica.

O TA não está limitado exclusivamente aos adipócitos. É um tecido complexo em que os adipócitos maduros envolvidos na regulação do metabolismo lipídico e na produção de algumas hormonas podem ser distinguidos. Além disso, uma população celular heterogénea constitui a fração estromal vascular (FEV).

Contém células progenitoras de adipócitos, pré-adipócitos e várias células vasculares do sistema imunológico. O estudo da vascularização e inervação do TA revelou que os depósitos de gordura não são irrigados e inervados homogeneamente. A matriz extracelular (MEC) que fornece a estrutura, digamos a arquitetura, do TA contém um conjunto complexo de constituintes (ou seja, vários tipos de colagénios, fibronectina, laminina, elastinas e proteoglicanos). Assim, haverá remodelação significativa durante o desenvolvimento da massa gorda. O fenómeno pode ir até o aparecimento de áreas fibróticas no TA de pessoas obesas e os estudos mais recentes sublinham um papel importante da MEC nas possibilidades de expansão da massa gorda e no metabolismo dos adipócitos.

EFEITOS DA TÉCNOLOGIA ENDERMOLOGIE® 

Um estudo original publicado na revista “Obesity Facts” mostrou que os estímulos mecânicos aplicados com um dispositivo de mecano-estimulação (Endermologie®) no TA femoral feminina foram capazes de ter um impacto na reatividade dos adipócitos. Ou seja, massagem mecânica do TA promove uma melhor reatividade lipolítica dos adipócitos e respostas vasodilatadoras vasculares. A recuperação de uma maior eficiência lipolítica num TA conhecido pela sua inércia de reação pode ser um benefício importante se combinado com programas de treino e de atividade física, conhecido por aumentar a mobilização de ácidos gordos não esterificados dos adipócitos e a sua oxidação pelo músculo esquelético ativo1. Intensamente estudada em todas as suas vertentes ao longo dos últimos 40 anos, o TA revelou-se com propriedades muito diversas, que resumiremos na tentativa de responder à questão colocada à partida:

O TECIDO ADIPOSO: UM AMIGO OU UM INIMIGO?

tecido adiposo

Uma questão importante a ser lembrada é que o adipócito maduro não se divide, então, o aparecimento de novos adipócitos, e a sua diferenciação, ocorre a partir dos pré-adipócitos. Assim, contribui para a expansão da AT na obesidade; hipertrofia (aumento do tamanho) e hiperplasia (aumento do número). A taxa de renovação de adipócitos na AT subcutânea humana é de cerca de 10% ao ano. A taxa de regeneração ou renovação de adipócitos dependerá da capacidade de renovação dos progenitores de adipócitos de células estaminais mesenquimais.

Os adipócitos desempenham um papel essencial no armazenamento de energia de nutrientes como glicose e ácidos gordos (dos alimentos ingeridos) na forma de triglicerídeos; isto é a lipogénese. O armazenamento excessivo leva ao aumento do tamanho dos adipócitos e expansão da massa gorda. Essas reservas lipídicas dos adipócitos podem ser mobilizadas conforme necessário através da lipólise, um processo complexo que garante a hidrólise dos triglicerídeos armazenados na gota lipídica do adipócito branco. Induz a libertação de ácidos gordos não esterificados (NEFA) e glicerol por essa célula. A lipólise é uma função muito específica dos adipócitos brancos, ativada pelo jejum prolongado e principalmente pela atividade física.

OUTRAS ATIVIDADES DO TECIDO ADIPOSO

Além da gestão do armazenamento de lipídios, os adipócitos são dotados de notáveis atividades secretoras. O TA sintetiza e segrega hormonas circulantes que atuam como moléculas sinalizadoras e/ou mediadores de processos inflamatórios.

Revolução conceitual: o adipócito tem uma atividade endócrina devido à sua capacidade de produzir hormonas! – A descoberta da leptina estabeleceu as capacidades secretoras do adipócito e revelou os efeitos pleiotrópicos dessa hormona da saciedade.

A lista de fatores segregados foi estendida muito rapidamente:

– A adiponectina e a apelina demonstraram melhorar a sensibilidade à insulina em vários tecidos. Além disso, a adiponectina pode atuar no sistema nervoso central para estimular o apetite, reduzir gastos de energia e afetar a formação de vasos sanguíneos. Finalmente, o TA é capaz de capturar muitos poluentes orgânicos persistentes (POPs). Portanto, é provável que desempenhe um efeito tampão quando exposto a esses agentes ambientais. O adipócito, com suas reservas de triglicerídeos, constitui um reservatório privilegiado para muitos poluentes lipossolúveis, potencialmente tóxicos, agrupados sob o termo de POPs, como organoclorados e diversos compostos aromáticos policíclicos.

EM CONCLUSÃO:

Resumindo, esta rápida visão geral do conhecimento da biologia e fisiologia do TA destaca o crescimento espetacular desse campo e revela a complexidade estrutural desse tecido. Nenhuma conclusão breve para a pergunta feita: o tecido adiposo é amigo ou inimigo? Tudo vai depender do seu nível de expansão e da distribuição anatómica dos depósitos de gordura.

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